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Uma Copa do Mundo de clubes com 24 participantes e realizada a cada quatro anos já é uma aberração. Não passa de um torneio caça-níqueis, não há outro objetivo nisso tudo a não ser engordar os cofres da Fifa com as negociações milionários de contratos publicitários e a venda de direitos de transmissão de TV. Pela lógica da cartolagem, se a Copa das Confederações perdeu o interesse, já não atrai o capital, que se crie algo para entrar no lugar.
Maior aberração, contudo, é a forma como a tal Copa vai sendo construída. A decisão da Fifa de deixar a critério de cada confederação continental a escolha dos clubes que vão participar é uma volta no tempo, aos tempos em que mais do que méritos esportivos o que importava era a influência política ou de alguma outra natureza, o apadrinhamento, para que se montasse o elenco dos torneios de futebol, em todos os níveis, especialmente por aqui, na margem direita do Oceano Atlântico.
A América do Sul terá direito a seis vagas no torneio. Duas, óbvias e indiscutíveis, pela proposta da Conmebol, serão os dois últimos campeões da Libertadores, o deste ano e o de 2020. A partir daí, porém, tudo é questionável. Por que classificar para uma disputa que em tese deveria reunir os melhores do mundo, os campeões da Sul-Americana? Afinal, não é essa uma segunda divisão, reunindo clubes que não conseguiram classificar em seus países para a Copa Libertadores? Isso faz algum sentido?
Mas o pior ainda está por vir. Se os planos da cartolagem encastelada em Assunção se concretizarem, teremos uma espécie de supercopa dos campeões continentais. O torneio — que chegou a existir nos anos 90 — seria ressuscitado entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021, reunindo todos os vencedores de Libertadores da história que brigariam pelas duas vagas restantes no Mundial da Fifa. Ideia mais cretina, permitam-me a palavra, é, impossível. Como encaixar mais um campeonato em meio ao conturbado calendário sul-americano, o brasileiro em particular? Vale lembrar que no ano que vem teremos mais uma edição da Copa América perdida no meio do ano e mais uma vez sacrificando os clubes com os desfalques de jogadores, fora da Data Fifa.
A CBF, num rasgo de independência – ao menos no discurso – colocou-se contrária à invenção cucaracha. “Quando houve a colocação dessa possibilidade, imediatamente manifestei que não há hipótese de os clubes brasileiros participarem desse torneio. Não temos nenhuma data disponível e não iremos sacrificar as férias e o período de pré-temporada no Brasil”, disse o presidente Rogério Caboclo. Resta saber até quando ele vai manter essa posição e o quanto terá forças para brigar e cooptar aliados à sua resistência.
Nesta semana, a cúpula da Fifa se reúne em Xangai para anunciar a sede do primeiro mundial no novo formato. Na Europa, a Uefa ainda não definiu, também, como vai preencher suas oito vagas. A China é favorita para receber o torneio. Não há nenhuma razão esportiva que justifique uma empreitada como essa. Desenvolver o futebol nos países menos relevantes é uma balela tão grande quanto usar esse argumento para justificar o aumento do número de seleções da Copa de 32 para 48. Neste caso, ainda pior, o resultado pode ser o nivelamento por baixo.
Agora, já que querem insistir na bobagem, espera-se que ao menos o façam com uma dose de dignidade. Exigindo, que critérios técnicos – um ranking continental, por exemplo, ainda que possam sempre surgir distorções – sejam usados, seja na Europa, na África, na Ásia ou por aqui para decidir quem estará em campo. Dos males, assim, teremos o menor.
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